Precisamos falar sobre o Kevin

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Não deu para resistir a usar o título do filme de 2011 da diretora escocesa Lynne Ramsay. Aqui, porém, estamos falando de Kevin Warsh, economista de 55 anos que foi indicado por Donald Trump na sexta-feira (30) para suceder a Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (FED), o banco central americano. Se aprovado pelo Senado, onde o governo tem maioria, Warsh deverá substituir Powell, cujo mandato à frente do FED se encerra em maio.

Powell está à frente do FED desde 5 de fevereiro de 2018, tendo sido indicado por Trump durante seu primeiro mandato presidencial. Ele teve de enfrentar os desafios da política monetária durante a pandemia em 2020, quando o FED injetou trilhões de dólares na economia para impedir um colapso devido às medidas de isolamento social. Também teve de coordenar o enxugamento posterior dessa enxurrada de recursos sem provocar uma recessão nos Estados Unidos.

Apesar desse desempenho invejável, Powell vem sendo alvo de ataques sistemáticos de Trump, que vem defendendo uma redução forçada dos juros para estimular a economia – e sua própria popularidade, tendo em vista as eleições de novembro.

Trump já disse que quer juros de 1 por cento ao ano para estimular o crescimento da economia. Ele já publicou posts classificando o presidente do FED de “incompetente” devido à sua resistência em baixar os juros e chegou a chamá-lo de “Jerome Tarde Demais Powell”.

O presidente do FED também é alvo de uma investigação criminal do Departamento de Justiça decorrente de sua gestão das reformas na sede do banco central em Washington. E Trump está tentando demitir Lisa D. Cook, uma das diretoras do banco central americano indicada por Powell, devido a alegações de que ela cometeu fraude hipotecária antes de ingressar no FED.

A Suprema Corte ouviu as partes e pareceu cética quanto aos argumentos do presidente. Os juízes também expressaram preocupação com a incursão na independência do FED e com as perspectivas de um impacto econômico adverso.

Tanta pressão levou Powell a um gesto raríssimo: no domingo, 11 de janeiro, o FED publicou uma resposta ao Executivo, dizendo que o processo era uma arma política para baixar os juros. Senadores republicanos manifestaram seu apoio a Powell, com alguns chegando ao ponto de afirmar que bloqueariam a confirmação de qualquer indicado para o FED até a questão ser resolvida.

Em circunstâncias normais, o nome do presidente do banco central só deveria ser conhecido de alguns economistas e investidores. A situação atípica do governo Trump transformou o cargo em (mais) uma trincheira política. Isso é péssimo para a economia e para os investimentos.

Diferente do Banco Central do Brasil, que tem apenas a tarefa de calibrar os juros para manter a inflação dentro da meta, o FED tem um mandato duplo: controlar a inflação e, ao mesmo tempo, preservar o menor desemprego possível. Essa dinâmica colocou os principais objetivos do FED em conflito, alimentando divisões internas sobre o que fazer em relação às taxas de juros.

Os bancos centrais já foram chamados de “quarto poder”, para além de Executivo, Legislativo e Judiciário. Ao conseguir alterar uma variável tão crucial quanto a taxa de juros, o banco central tem a última palavra sobre a aceleração ou frenagem da economia. E essa importância aumenta quando se lembra que a eles cabe o papel de regulamentar e fiscalizar os bancos.

Por tudo isso, não pode haver dúvidas entre os investidores que as decisões do banco central são isentas de pressão política. Só assim será possível preservar a confiança do mercado – e o valor da moeda – no longo prazo. Ao atacar Powell, Trump coloca em xeque essa certeza de isenção. E sempre haverá dúvidas entre os investidores se a decisão da quarta-feira (28) de manter os juros americanos estáveis foi motivada apenas pela inflação ou se houve alguma vontade de reforçar a independência diante da Casa Branca. Deu para perceber o tamanho da encrenca no longo prazo?

A expectativa é que a indicação de Warsh, um economista mais alinhado com Trump, desanuvie o ambiente. Em uma publicação em sua rede Truth Social, Trump elogiou Warsh, dizendo: “Ele ficará marcado como um dos GRANDES presidentes do FED, talvez o melhor. Além de tudo, ele é perfeito para o papel e nunca decepcionará”, escreveu Trump.

Quem é Warsh? Atualmente com 55 anos, ele foi o diretor do FED mais jovem da história ao assumir o posto em 2006, com 35 anos. Ficou no cargo até 2011. Ele acompanhou a crise financeira de 2008 e atuou como um elo vital entre o FED e Wall Street, enquanto o sistema financeiro e a economia dos EUA enfrentavam sua maior ameaça desde a Grande Depressão.

“Kevin acredita firmemente que é possível ter crescimento sem inflação”, disse o ex-gestor de fundos de hedge Stanley Druckenmiller em entrevista na sexta-feira. Warsh é sócio do Family office de Druckenmiller desde 2011.

O indicado para o FED afirmou recentemente que a inteligência artificial (IA) aumentará a produtividade, o que significa que a política do banco central não precisa se preocupar tanto com o fato de que os ganhos nos salários líquidos dos trabalhadores irão alimentar a inflação. Tal argumento poderia abrir caminho para mais cortes nos juros.

Se for aprovado pelo Senado, Warsh se juntará a um banco central dos EUA dividido sobre se deve priorizar o combate à inflação ou o apoio a um mercado de trabalho em declínio.

Warsh, que trabalhou anteriormente como assessor do presidente George W. Bush, tem defendido cortes nos juros, argumentando que as tarifas não levarão a uma inflação persistentemente mais alta. Porém, em sua primeira passagem pelo FED, ele foi considerado um “falcão” (hawk), ou seja, um defensor de uma política monetária menos tolerante com relação à inflação.

Ele terá influência, mas não o controle, sobre as decisões de política monetária. As taxas de juros são definidas por um comitê de 12 pessoas, que inclui os sete membros do conselho de diretores do FED, bem como um conjunto rotativo de quatro presidentes das unidades regionais do FED. O presidente do FED Nova York tem direito a voto permanente. Warsh é considerado um construtor de consensos. E terá de ser muito convincente para conseguir isso em um FED dividido.

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