Estima-se que mais de 500 mil brasileiros com 50 anos ou mais vivam atualmente com a Doença de Parkinson. O número pode mais do que dobrar até 2060, ultrapassando 1,2 milhão de casos, segundo estudo inédito realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). Entre os fatores que podem contribuir para o aumento estão o envelhecimento da população e a exposição a agentes ambientais, como pesticidas e poluição atmosférica.
O médico neurologista Gustavo Noleto chama atenção para a importância de reconhecer os sinais da doença, que nem sempre começam pelo tremor, como muitas pessoas imaginam. Segundo ele, o Parkinson mais que dobrou nos últimos 25 anos, principalmente em razão do envelhecimento populacional. A maioria dos diagnósticos ocorre em pessoas acima dos 60 anos, embora a doença também possa atingir indivíduos mais jovens.
Ele explica ainda que a hereditariedade representa uma parcela pequena dos casos. O especialista cita ainda que exposições a agentes químicos, pesticidas e hábitos alimentares estão entre os fatores investigados pela ciência como fatores de risco. “Em relação à hereditariedade, apenas uma pequena parcela, cerca de 10%, tem padrão genético definido. A grande maioria ocorre de forma esporádica”, disse o neurologista.
O médico também destaca a influência do estilo de vida e do estresse na saúde. Uma rotina com excesso de informações, cobranças e responsabilidades pode contribuir para o agravamento de condições de saúde.
“O estresse da rotina atual é incomparavelmente maior devido a metas irrealistas. Esse estresse emocional basal é fator de risco para doenças cardiovasculares e neurodegenerativas como o Parkinson”, afirma.
Também existem manifestações que podem aparecer anos antes dos sintomas motores, como alterações do sono, com sonhos vívidos e movimentos durante a noite, perda do olfato e constipação intestinal. A fala mais baixa e as alterações na expressão facial podem surgir em fases posteriores.
Gustavo Noleto também desmistificou que o tremor seja um sinal obrigatório para a confirmação da doença. De acordo com ele, esse sintoma está presente em apenas 30% dos pacientes, e que o sinal essencial para o diagnóstico é a bradicinesia, caracterizada pela lentificação dos movimentos.
O especialista ressalta que nem todo tremor indica Parkinson. O tremor relacionado ao estresse, por exemplo, pode ocorrer em situações de ansiedade e ativação do organismo. Já o tremor essencial costuma ser postural, enquanto o associado ao Parkinson aparece tipicamente quando a pessoa está em repouso.
Apesar de ainda não ter cura, a Doença de Parkinson pode ser tratada, e o diagnóstico precoce contribui para manter a qualidade de vida do paciente. Segundo o neurologista, a atividade física de intensidade moderada a intensa é o único fator comprovado capaz de retardar a evolução natural da doença, e reforça que a prática não deve ser substituída por medicamentos ou procedimentos cirúrgicos.
O paciente diagnosticado com Parkinson necessita de um acompanhamento multidisciplinar, com uma equipe composta por neurologista ou neurocirurgião, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psicólogo, terapeuta ocupacional e nutricionista. Cada profissional atua em necessidades específicas, como mobilidade, prevenção de quedas, comunicação, saúde emocional e controle da perda de peso.
Além disso, a família tem papel fundamental durante o tratamento, oferecendo, além de atenção, cuidados como adaptar a casa para evitar acidentes, ajudar o paciente a tomar os medicamentos nos horários corretos e no combate à desinformação sobre a doença.
Entre as tecnologias disponíveis para o tratamento da doença estão as bombas de infusão contínua de medicamentos e a estimulação cerebral profunda (DBS), que pode ser integrada a recursos de inteligência artificial para leitura de ondas cerebrais. No Piauí, tratamentos avançados podem ser realizados no Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI) e na rede privada.










